3.02.2005

Vertendo coágulos...


Mariana senta-se em frente à tela. "Área de trabalho. Área de trabalho. Nada mais".
Um trabalho um tanto quanto peculiar posto que demanda o sacrifício de suas entranhas e intestinos a um sem número de alguéns desconhecidos. Um trabalho escrito a sangue amargo e já endurecido.

Os dedos magros titubeiam diante do teclado. Magros, mas não mais tão frágeis quanto antes. Pensou em escrever outrora, mas sei lá... Outrora... Muito démodé. ( sem trocadilhos ).

Não sabe ao certo o que escrever. Mas avisa mentalmente ao seu leitor para não se preocupar: " Esse não vai ser um texto sobre a dificuldade de se escrever um texto, sobre a falta de idéias e a mais completa indecisão quanto à escolha de um simples ponto ou vírgula."
Muito clichê. Um texto como tantos outros. Meta-textos que na sua opinião deveriam ser metidos na (... ).

Mariana repele clichês. Afasta-se deles como lagarto de sobreaviso no meio de uma trilha no mato. Corre e se esconde. Para sei-lá-onde. Porque o sei-lá-onde é incrivelmente mais interessante. E tão poucos o conhecem. Apesar de estar bem ali.

Porém Mariana reconhece que não há como fugir em absoluto dos clichês. Eles estão lá, do outro lado da porta, à sua espreita. Nos atos mais previsíveis e estapafurdiamente idiotas que a vida nos oferece. No coração quebrado após um romance, nas borboletas no estômago, nas doenças quase siamesas de todos nós... Enfim... Uma sucessão de coisas extremamente enfadonhas capazes de serem vivenciadas aqui, ali, acolá, ontem, hoje, amanhã, e até mesmo por quem menos as merece ( e também por aqueles que, por bom gosto ou puro desgosto, não as desejam para si ).
Não há como evitar o grande clichê em que se desdobram as experiências humanas, e Mariana é consciente disso.

Mas Mariana sabe que o que diferencia é o olhar. E no olhar de Mariana não há uma sombra de padrões já estabelecidos. Seu olhar é curioso, ávido, pinta aquarelas e escreve poemas a respeito do nada, em homenagem a uma folha de papel. Há espaço para Chagal, Dalí, Goya, Klimt e Picasso no olhar de Mariana. Mariana também vê Helmut Newton e Sebastião Salgado. Analisa a trajetória fantástica de uma goma de mascar colada em seu sapato. E vê poesia mesmo onde há apenas o enfadonho, e ainda que misturada a tanta amargura...

Sim, há amargura no olhar de Mariana. Uma amargura madura que denuncia uma idade imaginária não denunciada pelo seus 22 anos. E aí Mariana se dá conta do porque escreve.

Mariana escreve porque tem ácido correndo em suas veias. Mariana verte sangue e no seu clímax hemorrágico não tem mais como SE conter.
Chove lá fora. Torrencialmente. Uma chuva hemorrágica como a que verte dentro de Mariana. E não há saída. Seus orifícios fisicamente saudáveis não dão conta da insalubridade do que detém dentro de si. E surge o dilema:
Porque se despeja seu ácido e dá vazão à hemorragia pelo único orifício que sempre lhe foi familiar e extremamente útil, ao tilintar com as pontas de seus dedos magros sobre um teclado qualquer, sabe que lida com doença. Sabe que lida com a fatalidade, a face oculta. A lesão no córtex cerebral que ninguém quer ver. E Mariana se dispõe a ir lá e enfiar seu dedo sujo bem no meio da ferida. Remói.

Mas se mantém-se retida, não permite a vazão. Torna-se um recipiente perene de todo lixo psicológicamente tóxico que produz e que é produzido sobre si mesma. Definha aos poucos. Deixa a infecção espalhar-se lentamente, até que... Até.

Há então o dilema. E entre assumir sua perfídia e a perfídia alheia, que nada mais é do que a sua própria, tão somente refletida sobre os atos de outra pessoa ( tão humana e tão pérfida quanto ela ); ou adotar uma crença neo-zen-budista-evangélica-republicana de ignorar a sujeira humana e prosseguir com um sorriso plastificado, botoxizado no rosto e pregar a velha e feliz hipocrisia, Mariana não hesita em fazer sua opção. ( até porque depois de ver as fotos de Marta Suplicy pós-cirurgia não há muito o que ponderar sobre o assunto. é caso encerrado - mal encerrado, a propósito. ).

Então Mariana escoa... Tudo aquilo há tanto guardado, putrefato dentro de si própria. Sem a intenção de julgar ou condenar, mas com a intenção de assumir essa sua condição estúpida e maravilhosamente lúdica. De ser humana. E pior do que isso... Escritora.

E Mariana pode não ser Mariana. Porque Mariana são tantas... Mariana se divide, se subtrai, se adiciona, se multiplica, se potencializa com a força de um animal selvagem e faminto, e em questão de segundos.

Mariana é Ana, é Catarina, é Sofia, é Fernanda. Mariana é Teresa, louca, histérica, sonhadora Teresa. Mariana é MAriANAAAAAA. Linda, sedutora, única, carente, solitária por entre portas de ármários que teimam em não se fechar. Mariana é Beatriz, Alaíde, Ingrid, Rita, Leopoldina, Geni, Anastácia. Mariana é Raimunda, não importando se com ou sem trocadilho porque só quem conhece há de saber.

Mariana é mais. Mariana é Eduardo, é Felipe, é Augusto, é Rangel, é João e Maria. Mariana não tem inveja do pênis. Mas pode ter. E se o tem, admite. Ainda que secretamente, num quase-silêncio.
Mariana é una e são várias. Mariana é até mesmo você.

Mariana é Vogler e Alma. Como eu mesma, como tudo.
Mariana não é nada, mas quer ser alguém.

Mariana não é estática, é força pulsante que falseia de corpo em corpo, flutuando por variadas existências sem ter um determinado "EU". Mariana é teatro e vida. É drama que escorre no asfalto da rua ao lado da sua.

Mariana é amphisbaena. Serpente de duas cabeças. Pode tanto ir para o norte, como para o sul. Leste ou Oeste. Pode te fazer o bem ou secar sua alma até te provocar muito mal. Mal reumático.
Mariana tem mil cabeças, dirigidas a infinitas direções, capazes de viver um trilhão e meio de vidas através de um pseudônimo e diferentes visões.

Mariana verte, afinal...

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Ótimo! :*

clap! clap! clap!

Sou suspeito para falar e não sou critico literario, mas eu adorei!

Beijos!

10:19 PM  
Anonymous Anônimo said...

Carol,

Obrigada pelo convite, obrigada pelo texto - você não sabe como foi bom ler isso hoje, exatamente hoje. Enquanto não refaço meu blog que foi pro espaço, às vezes mando das minhas no fotolog mesmo - apareça lá quando quiser. Sem segredos mas... com segredos. ;-)

3:44 PM  
Anonymous Anônimo said...

Conforme prometido:

"Foi muito bom!"
:-P

Sbrubbling Kisses

2:11 AM  
Anonymous Anônimo said...

(claps)

beijos pra vc, amphisbuena! - acima de qq trocadilho...

:*

5:48 AM  

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